Meio Ambiente

Baía Chacororé com água, mas sem vida

Redação: | 30/01/2011 - 00:00
Baía Chacororé com água, mas sem vida

Baía volta a ser cartão postal pantaneiro, com nível normal, mas recuperação do ecossistema só deve acontecer em 3 anos

Agora, além da falta de peixes, em inúmeras faixas de extensão que secaram a água da baía está repleta de capim. Outros corixos ainda precisam ser abertos

Cinco meses após o susto de uma estiagem histórica, revelado em primeira mão pelo Diário, a baía de Chacororé está recuperando seu volume de água e o visual de cartão postal do Pantanal mato-grossense, mas ainda deve encarar por no mínimo três anos o desafio de restaurar o ciclo da vida dentro de si. A previsão pode confundir quem hoje visitar estes 10 mil hectares de orla em Barão de Melgaço (a 133 Km de Cuiabá), tamanha a beleza da paisagem na cheia, mas se baseia no fato de que não foi só falta d’água o dano das depredações humanas na seca desoladora de 2010.

Naquela época, a estiagem foi mais devastadora do que o costume devido ao fechamento dos canais que alimentam a baía, os corixos, e pela depredação das barragens reguladoras do nível d’água. Desde agosto, viu-se um resultado de chão rachado e animais mortos. Anunciada a tragédia, logo foram cobradas medidas do governo, e novas ações exigidas pelo Ministério Público num Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) devem ser divulgadas a partir desta terça-feira para que o cenário não se repita, pois a única estratégia realizada até agora só terá seu efeito avaliado na próxima seca.

Trata-se da reconstrução por parte do governo das barragens que, nas estiagens, tentarão garantir o nível mínimo de água na baía. Hoje, as chuvas devolveram as águas a Chacororé, que estão pelo menos 1,5 metro acima dessas barragens. A Ilha do Caco, no meio da baía - onde era possível andar em agosto - está totalmente submersa. Em lugares onde a régua limnimétrica “zerava”, hoje a água cobre mais de dois metros. Além das chuvas, ela está entrando barrenta e com pressão do rio Cuiabá, com sedimentos e lixo (isopor, garrafas, sacolas) através do único corixo aberto, o Manizaque, e pelos rios Cupim e Água Branca.

A despeito do volume, esta água ainda guarda um ambiente morto, como aponta o professor Rubem Mauro Palma de Moura, do departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMT, que reside e estuda a baía. Ele mostra que a sucessiva obstrução dos cursos d’água ligados a Chacororé comprometeram a oxigenação da água e renovação de alevinos, ovas e peixes adultos. Tanto que o aparelho de sonar sequer acusou a presença de pesca enquanto a reportagem cruzava a baía de barco com o professor; uma situação parecida com a baía do Buritizal – outra joia da região de Barão de Melgaço comprometida pela ação humana.

Se recuperar a água foi uma questão de meses, recuperar a qualidade da água e consequentemente a vida dentro dela será questão de anos, prevê Moura. Isso porque agora, além da falta de peixes, em inúmeras faixas de extensão que secaram totalmente na estiagem, a água da baía está repleta de capim. São gramíneas que nascem no fundo da baía e, crescidas, estão mostrando seu verde a centímetros acima da água.

Elas não costumam resistir após secas regulares e sua presença neste atual período se deve ao rigor da última estiagem. É mais um problema a ser superado pela baía. Parte do capim já está se amarelando e morrendo. Esta matéria orgânica em decomposição deverá ainda consumir o pouco oxigênio da água, que não se renova devido à obstrução dos corixos (ver matéria). Esse fechamento tanto impede a entrada de peixes e a oxigenação da água quanto dificulta a saída do capim morto ao se desprender do solo inundado. Em alguns pontos, a falta de vento ou ondulações estaciona o capim apodrecido. Pedaços eventualmente atrapalham o motor do barco, tentando abrir caminhos em meio ao verde.

RECUPERAÇÃO - O que acontece agora é a repetição do que houve após outra grande seca, a de 1997. Segundo Moura, o governo (ver matéria) e trabalhadores pantaneiros como Orlindo Pereira, após aquele episódio foram necessários pelo menos três anos para a matéria orgânica se decompor. Aí o oxigênio começou a se renovar, retomando a qualidade da água na baía. “Foi em 2003 que ela se recuperou mesmo”, recorda.

 


Fonte: Diário de Cuiabá