Pronto para dar um passo importante na modernização do sistema de votação brasileiro, no início da última década, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) resolveu lançar mão das urnas eletrônicas. Para testar a eficiência da nova tecnologia, resolveu fazer simulações em alguns municípios do país.
Santo Antonio do Leverger, em Mato Grosso, foi uma das localidades escolhidas, por estar próxima da capital, facilitando a logística para o evento e também pelas características singulares de sua anatomia social. Lá habitavam típicos pantaneiros.
O TSE programou o escrutínio simulado em todo o país, tendo como candidatos cantores e escritores falecidos. Era a chamada “eleição dos mortos”.
Supersticiosa, a população de Santo Antonio estranhou e sugeriu a mudança dos postulantes para nomes de blocos carnavalescos da cidade e peixes da fauna regional.
Brasília gostou e aprovou a mudança. Afinal, era garantia da efetiva participação da comunidade. Assim foi feito. Nas ruas, os eleitores se dividiram e deram vida ao simulado. A prefeita Glorinha Garcia e o senador Jonas Pinheiro envolveram-se diretamente na disputa como cabos eleitorais de seus blocos favoritos. Era uma festa só... Eleição com clima de folia de Momo.
Eis que na hora de inserir nomes e logomarcas dos grupos carnavalescos para serem conferidos pelos eleitores nas telas das urnas, deu-se o inusitado. Os títulos e símbolos gráficos eram pura alusão à luxúria, ao erotismo e ao deboche: “Xana Cheirosa”, “O seu que Brilha”, “Pelô Meu Saco” e “Pau Brilhoso”, entre outros...
Faltando apenas uma semana para o teste eleitoral que contaria com a presença do ministro Néri da Silveira, presidente do TSE, homem austero e religioso, sua assessoria reagiu indignada e um deles ligou para o diretor-geral do Tribunal matogrossense, Gilberto Villarim, fuzilando:
Na hora de inserir nomes e logomarcas dos grupos carnavalescos para serem conferidos pelos eleitores nas telas das urnas, deu-se o inusitado. Os títulos e símbolos gráficos eram pura alusão à luxúria, ao erotismo e ao deboche.
- Me esclarece uma dúvida... Estas marcas que vocês mandaram são um ‘pinto duro’ e uma vagina?... Assim o ministro não vai, pô..., reagiu perplexo.
Representantes do TRE, entre eles o jornalista Américo Correia, procuraram os líderes da comunidade para desfazer o imbróglio. Glorinha Garcia não gostou... Recusou-se a participar, caso os blocos e peixes fossem retirados da urna. Para ela, seria uma afronta aos costumes locais.
O impasse estava colocado. E a solução encontrada foi salomônica. As secções visitadas pelo ministro Néri da Silveira, em Mimoso e na sede da Câmara dos Vereadores, promoveram a “eleição dos mortos” e as demais oito urnas da cidade mantiveram a escolha de blocos e peixes.
Todos ficaram felizes... O ministro foi poupado do constrangimento e o eleitor caiu na farra. Afinal, no Brasil a eleição é um verdadeiro “me engana que eu gosto”...
