Com fome, bicho nenhum tem vergonha de mostrar a cara. A seca na Baía de Chacororé, no Pantanal matogrossense, é tão severa que nas margens dá para ver tudo quanto é tipo de espécie.
Ao sul de Cuiabá a terceira maior Baía do Pantanal enfrenta a pior seca da história. Do alto é possível ver ilhas na Baía de Chacororé, que dá uma noção deste desastre ambiental. Normalmente nesta época do ano a baía tem ainda 10 mil hectares alagados. Hoje quase metade disso já secou. Numa área equivalente a de cinco mil campos de futebol, os peixes foram embora e deram lugar ao gado. Ficou também o que morreu no fundo da baía.
A área de vegetação chamada Ilha do Caco, como o próprio nome já diz, é um lugar que fica cercado de água inclusive no período de estiagem. Agora o que era uma ilha já se juntou à terra firme.
A água da Baía de Chacororé vazou para outra baía, a de Siá Mariana. Mesmo nesta época do ano, normalmente o lugar ainda está coberto por água. A barragem que fica entre as Baías de Chacororé e Siá Mariana foi colocada ali justamente para impedir que a água de Chacororé vaze muito rapidamente para Siá Mariana. O problema é que recentemente as pontas dessa barragem foram destruídas e agora está funcionando como um grande ralo sugando ainda mais a água de Chacororé. "Parte destas barragens foi destruída para facilitar o acesso dos barcos", diz Alexander Maia, secretário de Meio Ambiente de Mato Grosso.
A Secretaria de Meio Ambiente tem apenas 80 fiscais para todo o estado de Mato Grosso. E na época da seca nenhum deles vigia a pesca predatória. Todos trabalham no combate às queimadas.
O Ministério Público exigiu uma resposta imediata. "Se tivesse feito a fiscalização normal, com certeza os danos seriam menores", acredita Julieta do Nascimento Souza, promotora do Ministério Público Estadual do Mato Grosso. A promessa do secretário é reconstruir a barragem em uma semana.
Problema antigo
O rompimento da barragem para facilitar a pesca predatória é um problema recente. Mas outra interferência humana, mais antiga, também prejudica a baía. Nas imagens de satélite dá para ver: o formato da Baía de Chacororé lembra o de um coração. No local, as artérias são pequenos canais chamados corixos. São eles que mantêm viva a baía com água que vem do rio Cuiabá. Só que há mais 10 anos, este coração está ameaçado. A construção de uma estrada obstruiu os canais. "Interromper um recurso hídrico desses com certeza é um crime ambiental muito grande", critica o professor Rubem Mauro.
Foi a própria prefeitura de Barão de Melgaço que pagou o combustível para as máquinas que bloquearam os canais de água. "O prefeito então viu o lado social. Porque esta comunidade fica durante seis meses. Ela fica ilhada. Ela está levantando um pouco mais a altura da estrada, simplesmente para ela ter um pouco mais de tempo para poder tirar o gado", acusa Dion Cássio Jacob, secretário de Turismo e Meio Ambiente de Barão de Melgaço.
"É uma decisão se a gente vai querer que a Baía de Chacororé acabe e vire pasto... ou se a gente quer que a Baía de Chacororé continue como baía", alerta Carolina Joana da Silva, da Unemat.
Para salvar a baía é preciso mais: como dos dez corixos apenas um continua aberto, ele recebe toda a pressão do Rio Cuiabá. A água aqui desce com força arrastando sedimento das margens e muito lixo: sapatos, capacetes, milhares de garrafas pet e até um computador. O único que o pescador Valdomiro Padilha viu na vida. "Eu sonho ter um, mas não do lixo", diz
Mesmo que as medidas necessárias fossem tomadas imediatamente, a previsão das autoridades é que vai demorar no mínimo cinco anos para o Pantanal voltar a ser o que era.
"Eu sinto uma imensa tristeza. Água que não é de beber, tem que deixar correr", diz a professora Carolina Joana.
